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Alerta no Chile com o supersalmão |
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Por Gustavo González*
Os salmonicultores do país sul-americano opõem-se ao desenvolvimento de peixes transgênicos, devido à idéia negativa dos consumidores.
SANTIAGO.- A falta de um contexto legal pode facilitar a introdução no Chile do supersalmão, segundo grupos ecologistas, enquanto especialistas governamentais afirmam que os empresários do setor são contrários ao desenvolvimento de peixes transgênicos. O chamado supersalmão é um peixe geneticamente modificado que alcança o dobro do tamanho dos demais. “Este espécime realiza a proeza de “crescer até morrer” com apenas uma terça parte do alimento que consumiria um exemplar biologicamente normal”, afirma a Fundação Terram, liderada por Marcel Claude, especialista em economia ambiental.
Marisol Álvarez e Marcelo Campos, do Departamento de Aqüicultura da Subsecretaria de Pesca, explicaram ao Terramérica que a criação do polêmico salmão começou há 20 anos, quando um cientista canadense congelou um tanque com diversos tipos de peixes, morrendo todos eles, menos as “platijas” (peixe liso), que produzem proteínas anticongelantes. “Os genes sensíveis ao frio foram removidos do DNA desses peixes e colocados em um gene-guia para observar seu crescimento. O gene do crescimento utilizado foi o de um salmão do Atlântico”, disseram. A inserção desse material genético em ovas de salmão “permitiu desenvolver um peixe que, quando as águas se tornam mais frias e escuras, produz em seu fígado hormônios que lhe permitem manter o ritmo de seu metabolismo e continuar crescendo aceleradamente”, acrescentaram Álvarez e Campos.
Os especialistas governamentais destacaram que a melhoria genética é uma preocupação permanente na indústria chilena, cujo crescimento, da década de 90 até hoje, a coloca como a segunda do mundo, atrás somente da Noruega. A salmonicultura chilena realizou duas mil exportações, no valor de US$ 970 milhões, que este ano aumentarão para US$ 1,1 bilhão, para manter uma alta permanente e em 2010 chegar, segundo as projeções a US$ 3 bilhões. Rodrigo Infante, gerente-geral da Associação de Produtores de Salmões e Trutas, prevê que a demanda mundial de salmão dobrará nos próximos dez anos e que o Chile deverá duplicar sua produção, o que requer aumento das concessões aqüícolas de 350 para 1100.
A Fundação Terram e o Centro Ecoceanos, dirigido pelo biólogo Juan Carlos Cárdenas, opõem-se a esse crescimento, já que, a seu ver, o florescimento da indústria do salmão no Chile tem um alto custo ecológico. As duas entidades criaram o Parlamento do Mar, um grupo de pressão ambientalista que tem a adesão dos 42 mil membros da Confederação de Pescadores Artesanais do Chile. Um dos objetivos deste conglomerado é estabelecer vínculos entre as comunidades que trabalham nos cultivos de salmão no Alasca, Noruega, Escócia e Chile, com o objetivo de homogeneizar critérios trabalhistas e ambientais. A falta de regulamentação para a importação de ovas de salmão é, segundo a Fundação Terram, um dos vazios da legislação ambiental no Chile, e isso pode criar facilidades para a introdução do supersalmão.
Os ecologistas chilenos aderiram à campanha iniciada em maio, nos Estados Unidos, por grupos ambientalistas e de consumidores para que se proíba a comercialização deste peixe transgênico e sejam pesquisados a fundo os efeitos de seu consumo. Arnold Sutterlin, gerente da empresa Aqua Bounty Farms, que desenvolve um tipo de supersalmão, disse, no dia 11 de maio, ao Wall Street Journal, que está oferecendo a empresas do Chile a licença desse produto. Sutterlin explicou que a materialização de qualquer projeto vai requerer tanto a aprovação do produto e de sua comercialização pelas autoridades norte-americanas quanto o aval do governo chileno. “Em nosso país, os salmonicultores declararam sua oposição ao desenvolvimento dos peixes transgênicos, devido à idéia negativa dos consumidores”, disseram Álvarez e Campos.
Os especialistas da Subsecretaria de Pesca acrescentaram que esta oposição também se deve às características do produto transgênico no mercado, ao efeito ambiental diante da eventual fuga de exemplares e à perda das vantagens comparativas da salmonicultura chilena no contexto internacional. Existem métodos de melhoramento genético mais inócuos e de utilização mais factível para aumentar a produtividade, afirmam Álvarez e Campos. Eles também destacaram que a rejeição dos salmões transgênicos é generalizada na salmonicultura internacional. Entretanto, acrescentaram que o Chile não dispõe de contexto legal claro a respeito das técnicas de manipulação transgênica.
Existe uma regulamentação que obriga a submeter a estudos de impacto ambiental as atividades que venham a introduzir em território chileno espécies de flora ou fauna ou organismos modificados geneticamente ou manipulados por outras técnicas similares. Outros critérios a serem aplicados têm por base as recomendações da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação). Essas recomendações são informar aos consumidores sobre a existência de manejo genético, aplicar tecnologias genéticas orientadas à conservação da biodiversidade aquática, e orientar a comunidade sobre as implicações ambientais e humanas destas práticas, concluíram Álvarez e Campos.
* O autor é correspondente da IPS.
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