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Guardiães da história que jaz sob o mar |
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Por Pilar Franco*
O Panamá é o primeiro país do mundo a ratificar a Convenção da Unesco sobre a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático.
MÉXICO.- Os restos do passado que jazem no fundo do mar do Panamá estão agora incluídos em uma lei que protege o patrimônio histórico do país, destinada a reconhecer o valor da arqueologia subaquática e a fechar a passagem aos caçadores de tesouros. A Assembléia Legislativa panamenha incorporou, em 30 de junho, os tesouros subaquáticos à categoria de patrimônio nacional, uma boa notícia para os arqueólogos que buscam divulgar a riqueza cultural submersa em mares, lagos, rios e mananciais.
A zona declarada como de interesse arqueológico, uma área de 30 mil quilômetros quadrados nos oceanos Pacífico e Atlântico, onde há concentração de patrimônio subaquático, abriga vestígios de dezenas de galeões das armadas de Portugal e Espanha, que sulcaram os mares no período colonial.
A nova norma revoga decretos que permitiam ao governo negociar com empresas privadas acordos para a realização de resgates de tesouros, explicou ao Terramérica o diretor do Patrimônio Histórico do Instituto Nacional de Cultura (INC), Carlos Fitzgerald. Embora o quadro jurídico anterior proibisse permissões de resgate que violassem convênios internacionais de proteção ao patrimônio arqueológico subaquático, os decretos que agora estão caducos abriam espaço para a atividade dos caçadores de tesouros, explicou o funcionário.
As tarefas de busca e investigação do patrimônio cultural que jaz sob a água devem ser realizadas apenas por especialistas e com fins científicos, observou Fitszgerald. O país é o único, até agora, que ratificou a Convenção da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) sobre a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático, aprovada em 2001 e que requer a adesão de outros 19 Estados para entrar em vigor.
Para Pilar Luna, uma das poucas arqueólogas subaquáticas especializadas em Mesoamérica, é um feito que pelo menos um país tenha ratificado a convenção quase dois anos após haver sido firmada. Nos 23 anos que dedicou a esta disciplina, principalmente no México, que possui mais de dez mil quilômetros de litoral, as riquezas submersas revelaram muitos segredos, disse Luna ao Terramérica.
Por exemplo, a elaboração, desde 1999, de um atlas para o estudo dos "cenotes" - depósitos de água manancial - e de cavernas submersas na península sul-oriental de Iucatã, sítio da civilização maia, permitiu que se obtivessem vestígios da fauna extinta, como o mamute, e de atividades humanas de dez mil anos atrás. No entanto, "no leito marinho estão ainda inúmeros capítulos da história que desejam ser contados", observou Luna, que é sub-diretora de arqueologia subaquática do Instituto Nacional de Antropologia e História do México.
Esta disciplina, que requer um esforço multidisciplinar, procura recuperar o passado da humanidade através dos objetos, que são estudados para que se possa conhecer quem os fabricou, usou, perdeu ou refugou. A 40 metros de profundidade em um poço ou a 300 metros dentro de uma caverna subterrânea, os arqueólogos-mergulhadores encaram condições severas de trabalho: dispõem de pouco tempo para permanecer em um local, têm visibilidade limitada e enfrentam a ameaça de animais perigosos ou de correntes subaquáticas.
Além de recorrer às ciências afins, o arqueólogo-mergulhador deve empreender sua aventura aquática equipado com tanques duplos, barras de metal, luzes, bússola, manômetro, trena, e até lápis e papel especiais para fazer anotações embaixo d'água. "Um de nossos princípios é recuperar a informação no leito marinho evitando escavar, o que é sinônimo de destruir", de acordo com Luna.
Por agora, no Panamá, não há arqueólogos subaquáticos. No entanto, a nova legislação deu novo impulso à busca de recursos financeiros para empreender o que seria o maior projeto na matéria: resgatar os restos de uma das supostas caravelas da quarta e última viagem de Cristóvão Colombo à América, disse Fitzgerald.
* A autora é colaboradora do Terramérica.
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