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Impossível reduzir a fome até 2015 |
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Por Jorge A. Grochembake*
A FAO já sabe que em 2015 não estará cumprida a meta de salvar da fome a metade dos 54,8 milhões de latino-americanos e caribenhos que dela padecem.
GUATEMALA.- A intenção da comunidade internacional de salvar da fome a metade da população que a sofre não poderá ser cumprida na América Latina e no Caribe até 2015, pois será impossível reverter a tendência ascendente da insegurança alimentar, concluiu a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em sua reunião realizada na Guatemala. “No ritmo em que vamos, nem em 150 anos a meta será atingida”, afirmou ao Terramérica o embaixador permanente de Cuba perante a FAO, Alfredo Puig. Camponeses e indígenas da América Latina e do Caribe reclamam há décadas terras e créditos para saírem da indigência e garantirem seu sustento.
Em 1996, chefes de Estado e de governo reunidos na Cúpula Mundial da Alimentação de Roma comprometeram-se a reduzir à metade, no mais tardar até 2015, a proporção de pessoas com fome, estimadas em 842 milhões em todo o mundo. A FAO “estima que existem 54,8 milhões de pessoas desnutridas” na América Latina e no Caribe. “Para alcançar a meta, seria necessário reduzir esse número para menos de 30 milhões, enquanto a extrapolação da tendência indica que, em 2015, ainda existirão 49 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar”, advertiu a organização.
O sombrio panorama é parte de um documento da FAO, discutido entre 26 e 30 de abril, na capital guatemalteca, durante a XXVIII Conferência Ministerial da FAO para a América Latina e o Caribe, com as presenças de ministros da Agricultura de 33 países. “Enquanto não formos capazes de combater as causas que originam tudo isso, continuaremos neste círculo vicioso, de demandas e demandas insolúveis”, afirmou o embaixador de Cuba.
A América Central é a região que mais preocupa: nos anos 90 tinha cinco milhões de pessoas mal alimentadas, número que no final da década chegou a 7,5 milhões. Parte do problema, segundo Puig, está no fato de que mais de 70% da população mundial com fome vive em áreas rurais, desatendidas por governos e pela comunidade internacional, que em lugar de investir no campo o fazem em infra-estrutura urbana. O mexicano Gustavo Gordillo, subdiretor da FAO para a América Latina e o Caribe, disse ao Terramérica que a falta de financiamento rural é uma séria preocupação. “O financiamento via cooperação internacional e os recursos via créditos estão diminuindo de maneira consistente nos últimos dez anos”, disse Gordillo.
O clima que cercou a conferência não fez mais do que refletir o desânimo com essas notícias. O bispo católico gatemalteco Álvaro Ramazzini, à frente de milhares de camponeses que protestaram na Guatemala, no dia 28 de abril, acusou a FAO de estar “dominada por burocratas que gastam os fundos em reuniões e viagens sem nada resolverem”. Também questionou que a agência “avalie” modelos como o agroexportador, que “na Guatemala apenas torna ricos uns poucos e deixa a grande maioria muito pobre”, afirmou o religioso. “Tampouco - acrescentou - abordam o tema da posse da terra, que obedece a esse modelo agroexportador”, protestou o bispo da diocese do departamento de San Marcos, na fronteira com o México e foco de repetidos conflitos pela terra.
O embaixador Puig recordou que apenas os países do norte da Europa cumprem o compromisso assumido pelas nações industriais de dedicarem 0,7% de seu produto interno bruto (PIB) à cooperação para o desenvolvimento. Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), Dinamarca, Holanda, Luxemburgo, Noruega e Suécia são os únicos países industrializados que honram esse compromisso.
O senegalês Jacques Diouf, diretor-geral da FAO, reconheceu ao Terramérica a tendência negativa no combate à fome e a queda do financiamento. “Entre 1990 e 2000, os recursos do setor público para ajuda ao desenvolvimento diminuíram em 50%”, disse Diouf. A redução inclui tanto os itens cooperação e créditos internacionais quanto fundos dos governos. Contudo, “vimos em alguns países do continente uma vontade clara” de destinar maiores recursos á área rural. “É preciso garantir que todos os paises tenham essa vontade e que se traduza em investimento real, em destinar uma parte do orçamento nacional em favor dos pobres e, em particular, dos agricultores”, pediu Diouf.
O diretor-geral afirmou que a FAO incentiva estratégias de desenvolvimento agropecuário e de segurança alimentar, como o Programa Fome Zero do governo brasileiro e a Frente Contra a Fome na Guatemala. A FAO também apóia programas dirigidos aos camponeses, como “o controle de água, obras de irrigação e drenagem e atividades de melhoria de cultivos e diversificação de pequenas produções”.
* O autor é colaborador do Terramérica.
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