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Artigo


Novas promessas da cana

Por Patrícia Grogg*

Cientistas cubanos garantem que a gramínea é uma matéria-prima tão prometedora quanto o petróleo. Dela se obtém medicamentos, conservantes, resinas e plásticos.

HAVANA.- Cuba redobra a exploração dos derivados da cana-de-açúcar (Saccharum officinarum) para a medicina animal e humana, em tempos de reconversão de seu setor açucareiro, cuja produção tradicional tem preços reduzidos no mercado internacional. A política de reestruturação desse setor, empreendida há dois anos, inclui um reforço do uso de derivados nas indústrias alimentícia, química, farmacêutica e biotecnológica. De maneira unânime, os especialistas locais destacam que a cana-de-açúcar serve para fazer tanto açúcar e álcool quanto alimentos para animais, resinas, conservantes, plásticos e produtos para as indústrias de papel e móveis, entre outros derivados.

“Nos tempos que transcorrem para a produção e comercialização do açúcar, não basta produzir com qualidade e a baixo custo. É preciso ir a uma diversificação integral”, disse ao Terramérica Luis Gálvez, diretor do Instituto Cubano de Pesquisas dos Derivados da Cana-de-Açúcar (ICIDCA), com sede em Havana. Essa instituição, fundada há 41 anos, está na vanguarda dos esforços tecnológicos cubanos para aproveitar de maneira integral e eficiente a gramínea, tão associada com a história, cultura e tradição do país.

As pesquisas do Instituto incluem agricultura, alimentação animal e humana, estudos ambientais, biotecnologia e farmacologia. Entre as novidades da linha farmacêutica dessa instituição destacam-se extratos da cera de cana e ácidos orgânicos. “Nos derivados da cana-de-açúcar existe um potencial sustentado no conhecimento tecnológico alcançado pelo país”, destacou Gálvez, garantindo que a partir de matérias-primas originadas na cana, e através de tecnologias químicas e biotecnológicas, pode-se chegar a produtos tão variados quanto os obtidos pela petroquímica.

Da surpreendente variedade de derivados da cana, talvez o produto que mais popularidade conquistou internacionalmente no final do século XX foi o policosanol, ou PPG, descoberto e elaborado em laboratórios cubanos. O PPG tem excelente acolhida como regulador do metabolismo das gorduras, entre elas o colesterol, bem como suplemento alimentício para pessoas em situações de especial esforço ou desgaste físico. Este medicamento natural não provoca efeitos colaterais nocivos e a ele se atribui o benefício extra de aumentar a capacidade sexual. Tem clientela na Europa e na Austrália, entre outros pontos do planeta, e é desejado pelos que visitam a ilha. Os laboratórios Dalmer de Havana, onde o PPG é elaborado, trabalha há anos na busca de outros produtos naturais derivados de vegetais, especialmente da cana.

Há poucas semanas, especialistas cubanos apresentaram uma nova família de antibióticos para o tratamento de animais, obtidos da cana-de-açúcar pelo Centro de Bioativos Químicos da Universidade Central de Las Villas, na cidade de Santa Clara, 300 quilômetros a leste de Havana. Esse centro de pesquisa produz a partir do furfural, obtido do bagaço da cana, o chamado G-1, com potente ação contra bactérias e fungos resistentes a antibióticos antes disponíveis. Esse produto é oferecido em forma de ungüento oftálmico e veterinário para o tratamento de doenças em nove espécies de animais, explicaram os cientistas. Além desse produto, a partir do furfural foram desenvolvidos novos ingredientes farmacêuticos ativos para uso em biotecnologia agrícola e medicina humana e veterinária.

Também é elaborado em Cuba, a partir do bagaço de cana, os antidiarréicos Ligmed-A e Ligmed-H, para animais e humanos, respectivamente. O primeiro tem poderoso efeito antimicrobiano e grande capacidade de absorver toxinas e microorganismos patogênicos do tubo digestivo dos porcos. Seu uso em filhotes de animais é facilitado por não ter sabor e cheiro específicos, e tampouco efeitos secundários adversos ou contra-indicações. O Ligmed-H é usado com sucesso em hospitais para enfermidades do aparelho digestivo, inclusive com efeito paliativo em sintomas do câncer de cólon.

Durante décadas, Cuba investiu em infra-estrutura e formação científica para um setor que basicamente produzia açúcar cru e refinado. A aposta agora é tirar o maior proveito desse investimento, dizem as autoridades. Entre os projetos em andamento está a instalação do Centro de Desenvolvimento das Fermentações Industriais e da Nutrição, que terá três plantas-piloto de produção semicomercial de produtos biotecnológicos derivados da cana. Esse centro é preparado com o apoio financeiro do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e com implementação da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial.

A reestruturação do setor açucareiro levou ao fechamento, há dois anos, de 70 engenhos para deixar outros 71 em funcionamento. Em termos gerais, a intenção dessa reconversão foi reduzir custos de produção e ganhar competitividade, desenvolver uma agricultura sobre bases sustentáveis e aumentar a produção de alimentos, segundo explicaram na oportunidade as autoridades. O setor açucareiro foi eixo do desenvolvimento econômico, social e cultural cubanos durante séculos, e de suas fontes de trabalho dependiam, até a reconversão, 2,5 milhões de pessoas.

* A autora é correspondente da IPS




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Enlaces Externos

Instituto Cubano de Investigações dos Derivados da Cana-de-Açúcar

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