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Seca castiga a soja transgênica |
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Por Mario Osava*
A variedade genética modificada foi mais sensível à escassez de água no Brasil. Em algumas áreas perdeu-se 80% das plantações.
RIO DE JANEIRO.- A seca no sul do Brasil reduziu drasticamente a atual colheita de soja no Rio Grande do Sul e acrescentou novo combustível à polêmica sobre a produção de transgênicos. As variedades geneticamente modificadas, que dominam a sojicultura nesse Estado, sofreram perdas maiores do que as convencionais, segundo produtores locais. É natural, porque as sementes transgênicas foram contrabandeadas da Argentina, não estavam aclimatadas, por isso apresentaram menor resistência à escassez de água, explicou Narciso Barison, presidente da Associação dos Produtores e Comerciantes de Sementes do Estado (Apassul).
As variedades convencionais, desenvolvidas por empresas nacionais, certificadas e adaptadas à região, tiveram melhor desempenho. A diferença de perdas variou segundo as condições de cada plantação, atingindo “um máximo de 25%”, calculou. A empresa norte-americana Monsanto, que desenvolveu soja resistente ao seu herbicida glifosato, e assim potencializa a venda dos dois produtos, rejeita a comparação. “A intensidade da seca não permite comprovar diferenças de produtividade”, afirmou Ricardo Miranda, diretor de Desenvolvimento de Produto da empresa. “Nenhuma soja suporta esse nível de estresse hídrico”, que em algumas áreas causou a perda de 80% dos cultivos, argumentou.
Além disso, há dois fatores, segundo Miranda, que determinam um melhor desempenho diante da seca da soja transgênica: esta facilita e estimula a plantação direta (e, portanto, retém mais umidade no solo) e permite melhor controle das pragas, o que por sua vez elimina a competição pela água. A seca que já dura cinco meses no Rio Grande do Sul castiga mais duramente a soja, que é plantada principalmente em outubro e novembro. A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) calculou uma redução de 61,04%, em média, a produtividade dessa oleaginosa no Estado, caindo dos esperados sete mil quilos por hectares para apenas 782 quilos. Dessa forma, os 8,3 milhões de toneladas de produção esperados caíram para 3,2 milhões de toneladas.
A soja RR (Roundup Ready) da Monsanto começou a entrar ilegalmente no Estado há quase 10 anos e se expandiu para cerca de 80% da área plantada, segundo avaliações que obviamente são difíceis de comprovar. Nos dois últimos anos, diante do fato consumado, o governo procurou dar legalidade temporária à soja proibida através de sentença judicial de 1999. Agora, com a Lei de Biosegurança aprovada pelo Congresso, no dia 2 de março, se busca uma solução definitiva para as incertezas jurídicas que afetam a nova tecnologia no Brasil. A plantação clandestina e a confusão jurídica dos últimos anos deixaram em situação crítica o setor de produção de sementes, especialmente no Rio Grande do Sul. Suas empresas foram afastadas do mercado diante do avanço dos transgênicos, cujas sementes não podiam produzir legalmente.
Agora que a seca comprovou as vantagens dos cultivos adaptados ao clima e solo locais, deve haver uma “corrida” dos agricultores por sementes certificadas, mas elas não estão em quantidade suficiente, observou Barison. A multiplicação das sementes transgênicas para atender a demanda em todo o Estado demandaria três anos, previu, e as convencionais agora são insuficientes, devido à sua baixa demanda nos últimos anos. Por isso, a sojicultura no Rio Grande do Sul, que era responsável por mais de 15% da produção nacional, vai demorar alguns anos para recuperar o volume anterior de produção. Na próxima semeadura os agricultores terão de usar suas próprias sementes, de baixa qualidade e piorada pela seca.
“É a oportunidade para um debate mais profundo sobre o modelo de desenvolvimento agrícola” no país, afirmou Altermir Tortello, coordenador da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul) e membro de dois Conselhos do governo brasileiro, o da Segurança Alimentar e de Desenvolvimento Econômico e Social. Em sua avaliação, esta seca “foi uma grande lição” não só sobre a questão dos transgênicos, mas, também sobre a monocultura. A chamada “revolução verde”, iniciada no Brasil nos anos 70, com ampla mecanização, abusou de insumos químicos e monocultivos para exportação, é uma das causas da forte seca atual no sul, ou pelo menos de seu agravamento, afirmou Tortello.
Esse modelo se faz com desmatamento generalizado, drenagem de pântanos e uso intenso de água, desequilibrando ecossistemas, argumentou. No Rio Grande do Sul, “viaja-se centenas de quilômetros sem ver nenhuma floresta, apenas soja”, lamentou. Os pequenos agricultores que se iludiram com a monocultura da soja, porque parecia “uma mina de ouro”, agora quebraram, disse Tortello, que defende uma “mudança no modelo” em favor da diversificação de cultivos, com fator de sustentabilidade ambiental e também social. Os transgênicos fortalecem e agravam o modelo de monocultura exportador, que concentra a propriedade das terras em poucas mãos, expulsa e empobrece os camponeses, além de degradar o meio ambiente, garantiu.
Barison, ao contrário, defende a liberação dos transgênicos para que os agricultores possam escolher a plantação que mais lhes convém. Ele diz que os produtores de soja do Sul “pagam o risco que assumiram” com a semeadura ilegal e que as perdas agravadas não se deveram à modificação genética, mas às sementes impróprias. Várias empresas tecnológicas, inclusive a estatal Embrapa, desenvolveram cultivos transgênicos de boa produtividade, incorporando o gene da Monsanto que incluí a resistência ao herbicida glifosato. Miranda acredita que se entrar em vigor a Lei de Biosegurança tal como foi aprovada, haverá uma rápida expansão das plantações transgênicas, devido à forte demanda dos agricultores.
* O autor é correspondente da IPS.
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