PNUMA PNUD
Destaques
Edição Impressa
MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO
English Version Versión en Español
Buscar Archivo de ejemplares  
 
  Home Page
  Reportagens
  Análise
  Destaques
  Ecobreves
  Galeria
  Gente de Terramérica
                Grandes
              Nomes
   Entrevistas
  ¿Quem somos?
  Inter Press Service
Principal fonte de informação sobre temas globais de segurança humana
  PNUD
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
  PNUMA
Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente


Destaques


A gripe viaja em aves migratórias

Por Francesca Colombo*

Ativistas afirmam que a União Européia deveria proibir a caça de aves migratórias, o principal vetor do temido vírus tipo A H5N1.

MILÃO.- Após os primeiros casos de gripe aviária na Turquia, Romênia, Grécia e Rússia, a União Européia reforça os controles sanitários, enquanto ambientalistas pedem que seja proibida a caça de aves, diante de evidências de que as espécies migratórias são os principais vetores do vírus. A gripe do frango é causada pelo vírus tipo A H5N1, uma cepa muito patogênica e perigosa por sua capacidade de mutação, que ataca as aves silvestres e em criadouros e é transmitia a seres humanos pelo contato com secreções respiratórias ou fezes de animais enfermos. A Organização Mundial da Saúde teme que a variedade H5N1 sofra mutações rapidamente e passe a se espalhar entre os humanos, o que até agora não foi verificado.

No dia 19 de outubro, o governo da Rússia confirmou a presença desse mortal vírus, pela primeira vez, na zona européia do país, em Yandovka, um povoado ao sul de Moscou. As autoridades informaram que o vírus, ao que parece, se disseminou por meio de aves migratórias procedentes da Sibéria, e determinaram a imediata quarentena da localidade. Na Turquia, o vírus atacou aves em Kizikza, capital da indústria avícola do país, hoje também em quarentena. Ali, homens com trajes que lembram astronautas, recolhem as aves nas granjas e as jogam em uma espécie de câmara de gás ambulante. Depois as embrulham e enterram sob quilos de cal.

Na realidade, o foco da infecção é Kush Golu, uma reserva natural com um lago que recebe muitas aves. Segundo os especialistas, a H5N1, uma das 15 cepas da gripe aviária, se incuba sob as milenares árvores dessa reserva natural, lugar de repouso de espécies migratórias procedentes da Ásia com destino à África. O governo turco proibiu a caça de aves, “uma medida que deveria ser aplicada em toda a União Européia, pois milhares de caçadores estão em contato com espécies migratórias, o que é um perigo. Na Itália são 700 mil, concentrados especialmente no norte do país”, disse ao Terramérica Piero Malenotti, do Partido Verde.

Vários governos europeus, entre eles o da Holanda, tomaram medidas de prevenção, como colocar teto ou redes nas granjas de frango, para evitar o contato entre essas aves e as migratórias. Se as aves migratórias levam a cepa do vírus em seus deslocamentos continentais, poderia ocorrer uma pandemia, adverte um estudo das universidades de Hong Kong e Shantou (China), publicado em outubro pela revista científica norte-americana Nature. Há dois meses, a doença foi detectada em várias espécies aquáticas migratórias no lago chinês de Quinghai, onde se criam e se alimentam no inverno.

Assim, as granjas e os lagos de repouso na Europa, Índia ou Austrália podem estar em perigo. Na Romênia, no delta do Rio Danúbio, por exemplo, foram confirmados três casos de gripe aviária em patos, da mesma cepa H5N1 das aves asiáticas. Na Grécia, as autoridades de saúde da Ilha de Chios, a 480 quilômetros de Atenas, confirmaram o primeiro caso da enfermidade em um peru. “A União Européia está realmente bem preparada, tem serviços veterinários muito fortes e os cidadãos estão bem informados para enfrentar o vírus. Porém, outras regiões, como o Sudeste Asiático ou a África, são vulneráveis”, disse ao Terramérica Samuel Jutsi, diretor de Produção e Saúde Animal da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), com sede em Roma.

“A FAO já ofereceu assistência a esses países, porque as aves migratórias poderiam disseminar o vírus nesses territórios”, afirmou Jutsi. A mudança climática e as modificações no meio ambiente, ou nos processos de criação dos animais, podem ser responsáveis pelas mutações do vírus e por estes saltos de uma espécie para outra. Até 1997, acreditava-se que a gripe do frango afetava apenas as aves. Naquele ano foram registrados os primeiros casos em seres humanos, em Hong Kong. Em 2005, morreram 57 pessoas e foram sacrificadas 140 milhões de aves de granjas no Sudeste Asiático (Vietnã, Camboja, Tailândia e Indonésia).

Se o vírus da gripe aviária sofrer uma mutação e proliferar entre humanos, poderia matar 150 milhões de pessoas, afirmam especialistas em saúde da União Européia. Seria como reviver a pandemia da “gripe espanhola” (do vírus A H1N1), que, em 1918, causou 50 milhões de mortos, a maioria jovens e adultos sãos. Ou a gripe de Hong Kong (vírus A H3N2), que, em 1968, provocou 34 mil mortes nos Estados Unidos. Entretanto, a FAO é cautelosa. “Até agora, o problema não é para a saúde humana. A gripe aviária é uma doença animal. Durante dois anos, milhares de pessoas tiveram contato com aves infectadas e houve 63 mortes”, ressaltou Jutsi.

“A transmissão do vírus animal para o ser humano não é eficiente e não há contágio entre pessoas. Sessenta e três mortos é muito, mas é um número baixo se comparado com a quantidade de pessoas que teve contato com o vírus na Ásia”, esclareceu o especialista. No momento, a enfermidade ameaça o sustento de centenas de milhões de criadores pobres. E, sobretudo, põe em perigo a produção nas pequenas granjas e criadouros avícolas industriais, segundo a FAO. Os consumidores europeus deixaram de comprar frango e Peru. Na Itália, a União Nacional de Avicultores, que emprega 80 mil trabalhadores, prevê uma redução no consumo da ordem de 40%. Até 2004, cada italiano consumia 18 quilos de carne de frango por ano. Em 2005, essa média caiu para 11 quilos.


* A autora é colaboradora do Terramérica.


Copyright © 2007 Tierramérica. Todos os Direitos Reservados